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O
curso tem como objetivo leitura e comentário do Seminário 11: Os Quatro
Conceitos Fundamentais da Psicanálise de Jacques Lacan, bem como dos textos de
Freud e de outros autores com os quais ele realiza interlocução nesse livro,
visando estabelecer o solo epistemológico e teórico-clínico que instaura o
campo lacaniano como o campo do gozo suportado pelo analista em função. O seminário 11 representa o ponto de viragem em que o ensino de Jacques Lacan , que
depois de proceder o retorno a Freud com a tese “o inconsciente é estruturado
como linguagem” marca um trajeto distinto do freudiano, diferenciando o
inconsciente freudiano de sua concepção de inconsciente como tendo o estatuto
ético.Ao marcar o objeto a, como sua única invenção, inicia sua formalização
nesse seminário a partir da teoria da pulsão, apresentando suas conseqüências
clinicas que o levarão a revisar o conceito de repetição e transferência. Nesse
seminário, apresenta sua primeira formulação do desejo do analista e das
operações necessárias ao tratamento e do final de análise, elementos
indispensáveis na formação do analista.
![]() Os embaixadores de Hans Holbein Módulo 1º Semestre 2009 Inconsciente e Repetição O conceito de repetição em Freud se encontra articulado à memória e linguagem.No texto Sobre a afasia concebe o aparelho psíquico como um aparelho de linguagem e recusa a tese de localização estrita, estabelecendo uma concomitância dos fenômenos fisiológicos e psíquicos. Ao situar, o neurônio como unidade elementar e que a energia se transfere de uma a outra unidade de acordo com certas leis e numa certa temporalidade , um período em que é propagado para todo tecido neuronal por indução conferindo à excitação uma qualidade, ele lança as bases de uma teoria da memória que não coincide com a função mental mas com uma montagem. Em 1895, no Projeto para uma psicologia cientifica, Freud estabelece o aparelho psíquico como um aparelho de memória regido pelo princípio de prazer o que permite a possibilidade da permanência de uma marca no tecido nervoso a partir da passagem da excitação. É um sistema que não retorna a um estado primeiro , sem que as marcas o atravessem e deixem sulcos. A exigência de trabalho ao aparelho imposta pela excitação interna atua de modo constante e exige escoamento, permitido pela Bahnung, espécie de trilhamento que oferece menos resistência à passagem da excitação nas barreiras de contato. A partir dessas trilhas há um encontro que fomenta o prazer, caminhos de facilitação responsáveis pela constituição de uma trama de cadeias fazendo com que haja possibilidade de inscrição de alguns percursos, elementos que implicam segundo Lacan na incidência do simbólico e na dimensão da linguagem. A concepção freudiana de Bahnung e sua complexidade não aponta uma memória autonomizada mas na formação de caminhos privilegiados que se entrecruzam formando uma rede complexa. A carta 52 apresenta a formação das trilhas como marcas relidas, elementos que permitirão articular a memória, inconsciente, pulsão e recalque. Em 1914, Freud apresenta a repetição como retorno do recalcado e vinculada ao principio de prazer , da qual a compulsão a repetição é tributaria. Em 1920 ele retoma a repetição no contexto da criação da Pulsão de Morte para situar a repetição ligada a anulação do objeto e ao excedente pulsional. Nesse momento o automatismo de repetição não esta mais a serviços do principio de prazer mas visa o domínio da pulsão esta com o papel de excitação externa ao aparelho. Portanto a concepção freudiana de aparelho psíquico como um aparelho de linguagem e de marcas retidas e organizadas em uma extensa rede o leva a articular o conceito de repetição ao de inconsciente e de pulsão. O inconsciente como lugar desde onde se pode situar o retorno de lembranças traumáticas, implica numa concepção de aparelho psíquico ligado a memória e linguagem. Mas esta memória não é situada como uma função pois o desejo a subverte, o que o leva a distinguir rememoração de repetição e a situar dois tipos de repetição:uma repetição como retorno dos signos e uma repetição que visa dominar o traumático que incide no aparelho – um excedente não descarregado. No seminário XI “Os quatro conceitos fundamentais na psicanálise”, em 1963, Lacan apresenta o conceito de repetição a partir da releitura de Freud. Situa-o a partir de dois momentos teóricos: na primeira tópica onde o inconsciente é articulado ao principio de realidade e principio de prazer e na segunda teoria pulsional em que vincula o inconsciente a pulsão de vida e pulsão de morte.Lacan articula esses dois tipos de repetição ao registro do simbólico e real permitindo enriquecer a leitura freudiana sobre a realidade psíquica e o sexual. Percorreremos a seguinte temática: Memória
e rede associativa : o fio lógico e os pontos nodais Módulo 2º Semestre 2009 A Transferência e a direção do tratamento Na obra freudiana há dois contextos diferentes atribuídos à palavra transferência (Übertragung). Na “Interpretação dos Sonhos” (1900) a palavra transferência se liga a idéia de deslocamento pois aparece num contexto de um material significante, esvaziado de seu sentido que pode ser ocupado por novas significações. Trata-se da união de um desejo inconsciente a uma moção consciente, como os restos diurnos, por exemplo, que podem ganhar expressividade. No Seminário 1, “Os escritos técnicos de Freud”, Lacan situa esse primeiro sentido de transferência como a “tomada de posse de um discurso aparente por um discurso mascarado, o discurso do inconsciente”(1953-4, 280). O segundo contexto da transferência aborda a relação entre o analista e analisando. A transferência, no tratamento analítico, seria uma atualização do modo como o analisando estabelece sua relação com o outro. No texto “Recordar, repetir e elaborar”, Freud afirma que: “o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressa-o pela atuação ou atua-o. Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber o que está repetindo” (1914, 196). Em “A dinâmica da transferência” Freud a situa como fenômeno indispensável da cura e produção da própria neurose, a mais poderosa aliada do tratamento mas que pode se manifestar de forma negativa, ou seja, como moção hostil, está destinada a constituir o maior obstáculo para a análise. Em “Observações sobre o amor transferencial” ele aponta que o enamoramento é o efeito da transferência e adverte que não se deve repelir o amor transferencial provocado pela situação analítica, ainda que seja trabalho da resistência. A questão do manejo transferencial se torna complexa porque não se trata de se livrar dos componentes amorosos da transferência uma vez que próprio enamoramento revela ambigüidade: pode constituir obstáculo, mas deve ser mantido pois é condição para o tratamento. Lacan relê a teoria da transferência a partir dos registros do real simbólico e imaginário. Há transferência cada vez que um homem se dirige a outro,falando de maneira autêntica e plena, aqui se trata de transferência simbólica.Mas na situação analítica a transferência também é tomada no registro do semelhante (transferência imaginaria).Lacan retoma o impasse freudiano no que se refere a relação da sugestão com a transferência para precisar que uma se refere a demanda de satisfação de uma necessidade (Ordem do imaginária, do enamoramento e da universalidade do laço) e a outra é demanda de amor, a demanda que o sujeito faz ao analista pelo simples fato de ele estar ali. (Escritos, 440) A presença do analista além de estar lá para escutar o sujeito instaurando a transferência por representar para o analisando o agalma (objeto precioso) e o Sujeito suposto ao Saber também pode produzir o “fechamento do inconsciente” a incidência de algo que desempenha o papel de obturador, e que viria a ser o objeto a,(1964,138) campo onde se configura a transferência como real” (Lacan, 1964). Isto implica em reviramento do ensino lacaniano pois já não se trata de uma fala vazia mas do “raro momento em que o inconsciente, interrompido o curso das associações, mostra sua verdadeira realidade, e dá lugar à presença vazia do objeto a”.(Lacan, Sem XI,1964,138) Aqui Lacan avança na teoria da transferência ao apontar que ela é ao mesmo tempo obstáculo à rememoração e presentificação do fechamento do inconsciente, que é a falta, “sempre no momento preciso, do bom encontro” (1964,138), da presença do objeto, objeto causa.Para abarcar essa temática faremos um percurso pelo seminário VII e XI , passando pelos Escritos: A transferência: deslocamento e repetição
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