A ética e os conceitos fundamentais na direção do tratamento na clinica lacaniana



                "O que a psicanálise nos ensina, como ensiná-lo?" -, frase formulada por Lacan no texto “A Psicanálise e seu Ensino”, em 23 de fevereiro de 1957, em que insiste na articulação entre teoria e práxis, “sobre a qual é preciso lembrar que não se reduz aos problemas técnicos que surgem na experiência clínica. No seminário 11 “Os quatro com conceitos fundamentais da psicanálise” ele afirma que “os conceitos fundamentais fazem "parte da própria práxis", na medida em que o ensino desses fundamentos é dirigido "para algo que é elemento dessa práxis, isto é, a formação do psicanalista” (Lacan, 1985, 14)

                O curso tem como objetivo leitura e comentário do Seminário 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise de Jacques Lacan, bem como dos textos de Freud e de outros autores com os quais ele realiza interlocução nesse livro, visando estabelecer o solo epistemológico e teórico-clínico que instaura o campo lacaniano como o campo do gozo suportado pelo analista em função. O seminário 11 representa o ponto de viragem em que o ensino de Jacques Lacan , que depois de proceder o retorno a Freud com a tese “o inconsciente é estruturado como linguagem” marca um trajeto distinto do freudiano, diferenciando o inconsciente freudiano de sua concepção de inconsciente como tendo o estatuto ético.Ao marcar o objeto a, como sua única invenção, inicia sua formalização nesse seminário a partir da teoria da pulsão, apresentando suas conseqüências clinicas que o levarão a revisar o conceito de repetição e transferência. Nesse seminário, apresenta sua primeira formulação do desejo do analista e das operações necessárias ao tratamento e do final de análise, elementos indispensáveis na formação do analista.

                A transmissão através do texto tornou-se uma modalidade preponderante da difusão do ensino de Lacan mas ainda mais necessária nesse momento em que a sociedade pós-moderna recusa as grandes narrativas, a maestria e os ideais e empurra o sujeito ao gozo. Ainda que a transferência com os textos só opera na psicanálise na medida em que o discurso é sustentado por uma enunciação, e onde o saber se encontra interrogado pelo efeito didático da psicanálise de cada um, apostamos nessa via aberta por Jacques Lacan ao tomar os textos freudianos como ponto que permite a elucidação da ética que sustenta a psicanálise.

                O curso está distribuído em quatro módulos semestrais, duração de dois anos, e se destina a profissionais interessados na formação analítica e que tenham um percurso básico nos fundamentos da psicanálise. Ele abarca as seguintes temáticas:  Inconsciente,  Repetição, Transferência, Pulsão,  objeto a, A direção do tratamento na Neurose, A direção do tratamento na Psicose, A direção do tratamento na Perversão.


Respondentes:Deborah Sereno, José Roberto Olmos , Luiza Pinheiro Gonçalves , Maria Teresa Martins Ramos Lamberte, Raquel Diaz Degenszajn , Sandra Tiferes, Sandra Dias

Período: Segundo Semestre 2009 – Quarta-feira das 20:30 – 22:30 hs
Público alvo: profissionais interessados no aprofundamento da teoria lacaniana
Investimento: R$ 180,00 (5 parcelas)
Inscrições: secretaria do Espaço Psicanálise – (segunda, quarta ou sexta das 19:00-21:00 hs)
Local: R dos Pinheiros 54, conjunto 2 - Tel. 3062-5062
Matricula até dia 07/08/2009


Os embaixadores de Hans Holbein

Módulo 1º Semestre 2009

Inconsciente e Repetição

            O conceito de repetição em Freud se encontra articulado à memória e linguagem.No texto Sobre a afasia concebe o aparelho psíquico como um aparelho de linguagem e recusa a tese de localização estrita, estabelecendo uma concomitância dos fenômenos fisiológicos e psíquicos. Ao situar, o neurônio como unidade elementar e que a energia se transfere de uma a outra unidade de acordo com certas leis e numa certa temporalidade , um período em que é propagado para todo tecido neuronal por indução conferindo à excitação  uma qualidade, ele lança as bases de uma teoria da memória que não coincide com a função mental mas com uma montagem.

                Em 1895, no Projeto para uma psicologia cientifica, Freud estabelece o aparelho psíquico como um aparelho de memória regido pelo princípio de prazer o que permite a possibilidade da permanência de uma marca no tecido nervoso a partir da passagem da excitação. É um sistema que não retorna a um estado primeiro , sem que as marcas o atravessem e deixem sulcos. A exigência de trabalho ao aparelho imposta pela excitação interna atua de modo constante e exige escoamento, permitido pela Bahnung, espécie de trilhamento que oferece menos resistência à passagem da excitação nas barreiras de contato. A partir dessas trilhas há um encontro que fomenta o prazer, caminhos de facilitação responsáveis pela constituição de uma trama de cadeias fazendo com que haja possibilidade de inscrição de alguns percursos, elementos que implicam segundo Lacan na incidência do simbólico e na dimensão da linguagem. A concepção freudiana de Bahnung e sua complexidade  não  aponta uma memória autonomizada mas na formação de caminhos privilegiados que se entrecruzam formando uma rede complexa. A carta 52 apresenta a formação das trilhas como marcas relidas, elementos que permitirão articular a memória, inconsciente, pulsão e recalque.

                Em 1914, Freud apresenta a repetição como retorno do recalcado e vinculada ao principio de prazer , da qual a compulsão a repetição é tributaria. Em 1920 ele retoma a repetição no contexto da criação da Pulsão de Morte para situar a repetição ligada a anulação do objeto e ao excedente pulsional. Nesse momento o automatismo de repetição não esta mais a serviços do principio de prazer mas visa o domínio da pulsão  esta com o papel de excitação externa ao aparelho. Portanto a concepção freudiana de aparelho psíquico como um aparelho de linguagem  e de marcas retidas e organizadas em uma extensa rede o leva a articular o conceito de repetição ao de inconsciente e de pulsão. O inconsciente como lugar desde onde se pode situar o retorno de lembranças traumáticas, implica numa concepção de aparelho psíquico ligado a memória e linguagem. Mas esta memória não é situada como uma função pois o desejo a subverte, o que o leva a distinguir rememoração de repetição e a situar dois tipos de repetição:uma repetição como retorno dos signos e uma repetição que visa dominar o traumático que incide no aparelho – um excedente não descarregado.

                No seminário XI “Os quatro conceitos fundamentais na psicanálise”, em 1963,  Lacan apresenta o conceito de repetição a partir da releitura de Freud. Situa-o a partir de dois momentos teóricos: na primeira tópica onde o inconsciente é articulado ao principio de realidade e principio de prazer e na  segunda teoria pulsional em que vincula o inconsciente a pulsão de vida e pulsão de morte.Lacan articula esses dois tipos de repetição ao registro do simbólico e real permitindo enriquecer a leitura freudiana sobre a realidade psíquica  e o sexual.

Percorreremos a seguinte temática:

Memória e rede associativa : o fio lógico e os pontos nodais
Esquecimento e Memória: repetição como retorno recalcado
Aparelho psíquico e a Memória: os fundamentos da repetição
Traço e Estrutura
Determinismo e Acaso
A repetição e seu caráter pulsional : a compulsão
Repetição e Pulsão de Morte: sobre o excedente pulsional
A releitura do Projeto: a facilitação é a via da memória
O desejo subverte a memória : a anulação do objeto
Memória e Rememoração: sobre o simbólico
A repetição em Lacan e suas vertentes: simbólica e real
A repetição em Lacan: anulação objeto X encontro faltoso
Sonho, Trauma e o Real                                                                                                                


Módulo 2º Semestre 2009

A  Transferência e a direção do tratamento

                Na obra freudiana há dois contextos diferentes atribuídos à palavra transferência (Übertragung). Na “Interpretação dos Sonhos” (1900) a palavra transferência se liga a idéia de deslocamento pois aparece num contexto de um material significante, esvaziado de seu sentido que pode ser ocupado por novas significações. Trata-se da união de um desejo inconsciente a uma moção consciente, como os restos diurnos, por exemplo, que podem ganhar expressividade. No Seminário 1, “Os escritos técnicos de Freud”, Lacan situa esse primeiro sentido de transferência como a “tomada de posse de um discurso aparente por um discurso mascarado, o discurso do inconsciente”(1953-4, 280).

                O segundo contexto da transferência aborda a relação entre o analista e analisando. A transferência, no tratamento analítico, seria uma atualização do modo como o analisando estabelece sua relação com o outro. No texto “Recordar, repetir e elaborar”, Freud  afirma que: “o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e recalcou, mas expressa-o pela atuação ou atua-o. Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber o que está repetindo” (1914, 196).

                Em “A dinâmica da transferência” Freud a situa como fenômeno indispensável da cura e produção da própria neurose,  a mais poderosa aliada  do tratamento mas que pode se manifestar de forma negativa, ou seja, como moção hostil, está destinada a constituir o maior obstáculo para a análise. Em “Observações sobre o amor transferencial” ele aponta que o enamoramento é o efeito da transferência e adverte que não se deve repelir o amor transferencial provocado pela situação analítica, ainda que seja trabalho da resistência. A questão do manejo transferencial se torna complexa porque não se trata de se livrar dos componentes amorosos da transferência uma vez que próprio enamoramento revela ambigüidade: pode constituir obstáculo, mas deve ser mantido pois é condição para o tratamento.

                Lacan relê a teoria da transferência a partir dos registros do real simbólico e imaginário. Há transferência cada vez que um homem se dirige a outro,falando de maneira autêntica e plena, aqui se trata de transferência simbólica.Mas na situação analítica a transferência também é tomada no  registro do semelhante (transferência imaginaria).Lacan retoma o impasse freudiano no que se refere a relação da sugestão com a transferência para precisar que uma se refere a  demanda de satisfação de uma necessidade (Ordem do imaginária, do enamoramento e da universalidade do laço) e a outra é  demanda de amor, a demanda que o sujeito faz ao analista pelo simples fato de ele estar ali. (Escritos, 440)

                A presença do analista além de estar lá para escutar o sujeito instaurando a transferência por representar para o analisando o agalma (objeto precioso) e o Sujeito suposto ao Saber também pode produzir o “fechamento do inconsciente” a incidência de algo que desempenha o papel de obturador, e que viria a ser o objeto a,(1964,138) campo onde se configura a transferência como real” (Lacan, 1964). Isto implica em reviramento do ensino lacaniano pois já não se trata de uma fala vazia mas do “raro momento em que o inconsciente, interrompido o curso das associações, mostra sua verdadeira realidade, e dá lugar à presença vazia do objeto a”.(Lacan, Sem XI,1964,138) Aqui Lacan avança na teoria da transferência ao apontar que ela é ao mesmo tempo obstáculo à rememoração e presentificação do fechamento do inconsciente, que é a falta, “sempre no momento preciso, do bom encontro” (1964,138),  da presença do objeto, objeto causa.Para abarcar essa temática faremos um percurso pelo seminário VII e XI , passando pelos Escritos:

A transferência: deslocamento  e  repetição
A transferência e seu manejo
A transferência não é só repetição, ela visa ao ser
A transferência os ideais e o amor:
A transferência, o amor e o saber : a dimensão do engano
A transferência, a realidade inconsciente e o SsS
A transferência real e a presença do analista
A transferência, a pulsão  e o desejo do analista
A transferência é o amor que se dirige ao saber