Lacan diferenciou a psicanálise em intensão da psicanálise em extensão que compreende seus diversos planos de aplicação: estudo da teoria, sua aplicação nas ciências humanas, nas artes e sobretudo na clínica.
A psicanálise em extensão tem lugar, tanto no sentido de estabelecer laços com a cultura, ou seja os efeitos do discurso analítico no mundo, uma interlocução com os diversos campos da cultura como também o de divulgar a psicanálise na pólis. Aqui se inserem o profícuo debate com a antropologia, sociologia, história, filosofia, literatura e artes e ciências que a psicanálise realizando desde sua origem.
Nos dois âmbitos em que se produz a prática psicanalítica, podemos destacar que a articulação entre o sujeito, as instituições e o campo sociopolítico, tanto em Freud como em Lacan, apresenta-se dispositivos e metodologia para uma prática psicanalítica que vai além do tratamento estrito senso.Na transmissão dos fundamentos e da ética podem ser garantidos pela sustentação do discurso psicanalítico a prática privada nas variadas situações que se pode intervir no espaço publico ( como hospitais, escolas, prisões, etc...) como também os procedimentos efetivados na atenção psicossocial nos projetos sociais diversos.
Lacan ao afirmar que o inconsciente é o social ou o inconsciente é a política , aponta que o sujeito não tem outra forma de existência a não ser resistindo na tensão entre o que é do coletivo e o que é do singular. Assim o mal-estar, identificado por Freud como inerente à condição humana, fica potencializado quando a pós-rmodernidade expõe essas contradições humanas, escancarando nossa impotência.
Como psicanalistas, inseridos num espaço social não podemos recusar a pensar sobre as novas formas que toma lugar hoje o mal-estar na civilização, que provém do fato de desconhecer que a relação sexual "não cessa de não se escrever", como demonstrou Lacan.
Nos seminários dos anos setenta, Lacan profere: “Não há mais vergonha”.Qual é o estatuto da psicanálise quando não há mais vergonha, quando o próprio movimento da civilização tende a dissolvê-la. No mundo atualmente globalizado, dominado pelo discurso da ciência associado ao capital, a "ética" do capitalismo triunfou em toda parte, ameaçando destruir a ação da psicanálise o que obriga ao analista a debater com os diversos campos uma forma de evitar o pior., na medida em que Lacan indica que o discurso capitalista consumira tudo: a natureza, a cultura, o homem e a si mesmo.
O mal-estar na sociedade contemporânea pode ser caracterizado pelo crescimento da violência segregativa que aumenta as fraturas sociais e ataca a dignidade humana.; o conjunto de discursos que engendram práticas sociais e elidem o real do conflito psíquico no qual se atesta a dimensão do sujeito como ponto onde aflora o inconsciente; o discurso da ciência que através das tecnociências geram o apagamento da dimensão do sujeito ao pretender construir um mundo sem limites onde tudo se tornaria possível e o crescimento e surgimentos da religiões e novas seitas que buscam obturar a falta que produz a divisão do sujeito,
Todos estes discursos produzem enunciados universais que têm por finalidade dar garantia de verdade, chegando, inclusive, a prescindir, sistematicamente e cada vez mais, da enunciação O mal-estar concretizado pela ação destes discursos testemunha um desejo secular de atentado à função paterna cada vez mais acentuado e recusa da dimensão histórica, negando o passado e a reduzindo o trabalho da memória àquela de uma simples classificação.
O que pode a psicanálise oferecer para esse homem? Certamente, não a pílula da felicidade. Freud denunciou a falácia de uma tal promessa, pois definiu com a máxima clareza a impossibilidade do gozo absoluto, quem em última instância, confunde-se com a própria morte. No texto de 1923, chamado Psicanálise e Teoria da libido, Freud sublinha que a psicanálise é a única dentre as disciplinas científicas que mantêm as relações mais amplas com a ciências do espírito e apresenta para a história das religiões e da civilização, a mitologia e a ciência da literatura a mesma importância que para a psiquiatria.
Lacan, ao longo dos escritos e dos seminários, segue a trilha aberta por Freud; ele aponta que o psicanalista deve ser um letrado, uma recomendação lacaniana para a formação do analista, resumindo o que Freud enumera como sendo fundamental dentro da formação do analista.
“Estar no trabalho do inconsciente”, implica para o analista em formação permanente, estar à escuta dos significantes que na Cultura afetam diretamente as instituições e o sujeito e situar um lugar no qual a psicanálise pode ser um discurso subversivo que denuncia as ideologias vigentes em praticas que , embora de vanguardas, elidem a questão do sujeito em sua relação com o real.
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