REDE DE PESQUISA PSICANALISE E MEDICINA
CORPO, GOZO E DISPOSITIVO CLINICO

 

 

“ não sabemos o que é estar vivo, senão apenas isto, que um corpo, isso se goza”

(LACAN, [1975] 1985: 35).

 

 

No texto “Psicanálise e Medicina” (1966) Lacan retoma a diferença que Freud faz entre o corpo para a psicanálise e o corpo para a medicina, acrescentando a este corpo o gozo e o desejo. No Seminário 20 “Mais Ainda“ diz que há psicanálise de um corpo vivo que fala . Ele destaca a carne como fonte do vivo, para indicar que no “falasser” a carne atravessada pela linguagem, é o corpo-discurso que se dá a partir de certos acontecimentos e é também substancia gozante, ali onde o gozo se une a vida.

As formulações teóricas no ensino lacaniano aparecem em Função e Campo da fala e da linguagem (1953), passam pelo seminário As formações do Inconsciente (1956) e pela A terceira (1974), textos nos quais é elaborada uma teoria onde o corpo equivale à imagem do outro, depois o corpo equivale ao Ideal do Outro e finalmente o corpo como nó se equivale ao sinthoma e goza de objetos.

A carne se completa como corpo e prefigura sua “destinação alienante”: seu assujeitamento e corporalidade. Se para Freud a anatomia é o destino para Lacan o destino é o discurso; assujeitamento ao significante, corporalidade que pressupõe um corpo anatômico concebido no sentido de uma consistência, algo que sustenta o conjunto R.S.I. Concebido como consistência, o corpo não é mais um conceito mas é um elemento operativo para o discurso analítico. O corpo como estrutura deve advir do trabalho mental que o sujeito realiza de um enlaçamento das três dimensões do corpo: a da imagem que nos reconhecemos, a das marcas inconscientes que recebemos do Outro e a do real do gozo.

Assim o corpo pertence a essas 3 ordens – imaginário, simbolico e real, sendo suportado por uma linha de consistência, que implica coesão e manutenção das 3 juntas, formulação que permite uma dialogo que preserva a extraterritorialidade entre os dois campos: Psicanálise e Medicina.

No discurso analítico, o sintoma se encontra no simbólico e a psicossomática no real, causando diferentes experiências de gozo. Como a escrita esta no real e o significante no simbólico tem-se que pensar um dispositivo clinico para se operar em instituições de saúde, em particular no hospital, onde o corpo é a referencia do sujeito que sofre , frequentemente alienado ou excluído de um gozo avassalador.

O uso indiscriminado do termo “psicossomática” para caracterizar afecções sem causa orgânica leva a erros diagnósticos e tratamentos equivocados para um grande números de pacientes assim rotulados, difíceis de se analisar, aderidos a dimensão do corpo sem possibilidade de subjetivação.

Qual a direção do tratamento quando a queixa se concentra no órgão doente ou na dor?

A escuta em psicanálise se dirige a singularidade de um sujeito e não pode aceitar o deslocamento do plano do sentido para o da causalidade , nem transpor a causalidade orgânica para a psíquica, por isso Freud nunca utilizou o termo psicossomática. Através da articulação corpo e gozo poderemos pensar um fazer clinico para esses sujeitos petrificados em sua doença, que quando nomeada pelo saber médico, frequentemente constitui um ponto de estofo que regula a vida e pensamentos, atormentando-o, ali onde não há sentido e palavra para sua dor.

Visamos com essa rede formalizar um saber teórico que possa nortear um fazer clínico que não só diferencie o sintoma do fenômeno psicossomático como também possa fazer uma escrita do gozo mortífero presente nesta reação, procedendo a sua redução . Para isso teremos que pensar a clinica não só como trabalho do significante ou da letra mas também como a intervenção que recorta, faz cair pedaços do real.

 

 

Coordenação: Sandra Dias e Sandra Tiferes

Período: abril a julho 2010 – Quarta feira - Quinzenal - 20:00 – 22:30 hs
Datas: 07/04 - 28/04 - 12/05 – 26/05 - 09/06 – 23/06 07/07 -14/07
Público alvo: profissionais interessados no aprofundamento da práxis lacaniana
Investimento: 4 x R$ 100,00
Inscrições: por email ou fax: 3062-5062