REDE DE PESQUISA AS PSICOSES E A CLINICA PSICANALITICA
"Não fica louco quem quer”
(Escritos, 1998, p. 177)
“A loucura é o modo fundamental do falasser
habitar a alingua” ( Sem.23 -O Sinthoma)
Lacan apresenta a direção do tratamento para a neurose e um tratamento possível para a psicose a partir da psicose freudiana situada com o apoio do Édipo e da Castração.
No Seminário 3 “As psicoses” e no texto “ De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose” , Lacan busca um mecanismo análogo ao recalque. A psicose aí se caracteriza por um déficit do simbólico devido a forclusão de um significante – o Nome do Pai. A função do analista é a de secretário e o fim do tratamento é a estabilização na psicose através da metáfora delirante.
Em 1960, no texto
Subversão do sujeito, Lacan enuncia que não há Outro do Outro, colocando em
primeiro plano o
significante da
falta do Outro, abrindo espaço para a questão do que vem fazer suplência a essa
falta. Com o matema
se coloca a questão
da suplência e do desencadeamento, ambos situados a partir da hegemonia do
simbólico se elabora uma clínica nova, que não visa a extinguir o delírio, mas
o respeita como criação de um mundo onde o sujeito possa viver, um Nome-do-pai
de substituição, um significante que não obtura nem anula a forclusão, mas que
a tampona ou mascara até que uma evolução seja possível. Isso trouxe como
efeito um olhar sobre a loucura por um outro ângulo, revolucionando os longos
períodos de hospitalização e a medicação usada nesses tratamentos.
Nos anos 1970, Lacan escreve Os Nomes do Pai, pluralização que tem como conseqüência situar as psicoses não mais a partir da neurose, mas sim ao contrario. Aqui déficit se generaliza e há disjunção do Nome do pai e da significação fálica. Na clinica borromeana o Nome do pai é um artifício , uma suplência à peça que falta ao Outro. Pode haver Nome do Pai com elisão da significação fálica, não há desencadeamento da psicose mas desregulação do gozo como na toxicomania, anorexia, bulimia, depressão, entre outros. Por outro lado pode haver forclusão do Nome do Pai com modalidades de temperamento do gozo que não a significação fálica. Assim, nessa clinica se considera as diversas manifestações sintomáticas.
Enquanto nos anos 50-60 a questão diagnóstica se coloca a partir da diferença da Estrutura e do Fenômeno, recusando a categoria borderline; nos anos 70-80, a forclusão se generaliza; o buraco do simbólico existe para todos: não existe no inconsciente o significante da mulher que permitiria que a relação sexual pudesse se escrever. A tese “não há relação sexual”, indica pelo “não há” um lugar vazio que convoca sempre uma suplência.
Com a formalização do nó, a questão não é mais a metáfora paterna que marca as distinções e, sim, a particularidade da amarração do nó. Passamos da época do sintoma freudiano, que seria a representação da verdade do sujeito, para o sinthoma lacaniano, um misto de sintoma e gozo. A psicose pode ser apreendida como a falha desse nó, a dispersão de seus anéis, seu relaxamento que deixa flutuante seu ponto virtual de imbricação, o pequeno a.
Portanto podemos caracterizar o ensino lacaniano a partir de uma clinica atrelada a tese do inconsciente estruturado como linguagem e uma clinica atrelada ao real do gozo. Com a rede de pesquisa visamos estabelecer os elementos irredutíveis nas nomeadas clinicas - estruturalista e borromeana, estabelecendo uma possível articulação entre elas.
Partimos da tese de que a formalização pelo nó não elimina a questão de se pensar o diagnostico diferencial bem como a questão das psicoses fora do desencadeamento, das psicoses infantis e da função do analista colocadas inicialmente no ensino lacaniano.
Iniciamos o primeiro módulo de pesquisa a partir da Paranóia tema que levou Lacan à descoberta da Psicanálise, prosseguiremos depois tratando da Esquizofrenia, Melancolia e Mania.
Dentre as psicoses/loucuras o quadro que apresenta maior número de estudos , tanto na psiquiatria como psicanálise, é a paranóia situada como paradigma da psicose-loucura, em ambos campos. É de fundamental importância estudar os grandes mestres da psiquiatria da época que influenciaram Freud e depois Lacan nessa pesquisa como: Kraepelin, Séglas, Clérambault entre outros, momento em que estes dois campos se influenciavam reciprocamente, para entender o que acontece hoje em relação à doença mental.
Busca-se ampliar o entendimento sobre o fenômeno da “paranóia”, descrever os antecedentes psiquiátricos na obra de Freud e de Lacan e apontar que o resgate do sentido do “retorno a Freud”, possibilitou um diálogo interdisciplinar entre dois campos fecundos no trabalho com a doença mental que hoje se acham em oposição.
Essa rede convida aqueles que, a partir de suas questões clínicas, provindas da psicanálise e da interface com o trabalho na área da saúde mental ou outra área afim que queiram compartilhar suas experiências e construir um espaço de transferência de trabalho, no qual se pretende estabelecer as balizas do conhecimento atual sobre as psicoses , suas problemáticas teóricoclinicas e a ética na condução dos casos .
No ano de 2010 serão tratados os seguintes tópicos:
- investigar os antecedentes que levaram Lacan da psiquiatria à psicanálise freudiana na sua concepção de psicose e verificar a pertinência desses elementos no campo das psicoses na atualidade
- Especificar as influências teóricas que levaram Lacan a declarar o “retorno a Freud” pela linguagem em relação ao fenômeno da alucinação e transtornos de linguagem constados na clinica das psicoses
- Explicitar o conceito de delírio em psiquiatria e situá-lo em relação a clinica psicanalítica
- Analisar o paradigma da paranóia analisado por Lacan – o caso Aimée, levando em conta as modificação do conceito de psicose paranóica desde a sua apresentação até suas últimas formulações no campo lacaniano
Coordenação: Sandra Dias
Período: março a dezembro 2010 – Primeira
segunda feira do mês - 20:00 – 2230 hs
Datas: 01/03 - 05/04 - 03/05 - 07/06 - 05/07
Público alvo: profissionais interessados no aprofundamento da práxis
lacaniana
Investimento: 2 x R$ 120,00
Inscrições: por
email
ou fax: 3062-5062